Em uma cidadezinha que parecia perdida na imensidão do Brasil lecionava o professor Jacinto, cujas palavras proferidas numa
reunião escolar são até hoje recordadas. Houve, nessa pequena e árida cidade
rural, uma reunião com os professores, que trabalhavam nas escolas dos
assentamentos rurais, devido ao início do ano letivo. Era a primeira vez que
havia uma psicóloga entre eles e ela sugeriu que contassem um pouco de suas
experiências. Os professores falaram dos seus problemas, das dificuldades de
lecionar para aquela criançada que vinha da roça e do assentamento, em tempo de
seca. Já em tempos de cheia, ninguém se atrevia a cruzar o caminho em direção à
escola, pois se formavam os riachos por aqui e por acolá, deixando os moradores
sem mobilidade.
Em determinado momento, houve uma mudança no rumo do
diálogo, até então, centrado nos entraves vivenciados por aqueles profissionais
em seu cotidiano e na dificuldade de ensinar aos seus alunos. As palavras do
professor Jacinto vieram junto com suas lágrimas quando, tendo contado a sua
própria história – com a revelação de que ele também foi um daqueles meninos um
dia – indagaram-lhe o que o fez querer aprender ao ponto de tornar-se
professor. Jacinto revelou à pequena plateia, em confidência: o pequeno Jacinto,
chamado Tito, quis aprender a ler para descobrir o que estava escrito em uma
carta que a sua mãe recebera de seu pai. O professor não conheceu o pai e,
quando menino, pensou que ainda podia fazê-lo por meio daquelas palavras
enviadas por correspondência. Porém, ao olhar às escondidas o papel amarelado
dentro do envelope meio amassado, não pôde compreender aqueles símbolos miúdos
grafados com tinta de caneta azul sobre o papel. Sua mãe jamais leu para ele a
tal carta, ele teve que fazer por conta própria. Lembrou-se que, em sua
imaginação, buscava uma figura para o pai e se alegrou porque tinha conseguido
mais uma informação a seu respeito: ele sabia escrever. Com certo riso se
perguntou, naquele momento, por que virou professor de matemática e não de português.
Joaquim Maria
viveu muitos anos antes do professor Jacinto, na passagem do século XIX para o
século XX. Naquela época não era comum que um rapaz mulato, neto de escravos
alforriados, frequentasse a escola e se tornasse “alguém na vida” – muito menos
escritor. Corriam tempos em que os negros eram posicionados no último degrau da
escala social. Como seu pai era pintor de paredes e sua mãe lavadeira, Joaquim
tinha que trabalhar para ajudar com as despesas. Ainda rapazote perdeu a irmã,
a mãe (imigrante portuguesa) e, posteriormente, o pai, sendo criado pela
madrasta, a quem ajudava vendendo seus doces na porta dos colégios que não
podia frequentar. Ir à escola, nessa época, era privilégio restrito aos
nascidos em famílias ricas, mesmo assim se tem notícia de que a madrasta chegou
a matriculá-lo. Porém, em virtude da necessidade de trabalhar, assistia a
poucas aulas e, então, decidiu estudar por seus próprios meios. Teria aprendido francês com a dona de uma
padaria, estudado inglês praticamente sozinho e alemão, com aulas. Seu interesse pelas línguas era notável.
O jovem Vicente, por sua vez, nasceu no início do século
XX, tempos mais atuais, todavia ainda ingratos para com um filho de imigrante
portuguesa e que, como o professor Jacinto, não conheceu o pai. Ele diz ter
sido salvo por seu orgulho selvagem, com raízes provenientes do mundo rústico
em que vivia. Nesse lugar, iniciou a aprendizagem sociológica aos seis anos de
idade, na vida entre um cortiço e outro, onde morava com sua mãe. E foi
exatamente imerso nesse ambiente que ele pôde ter uma rara percepção: como
absolutamente nada o forçava a se encerrar no confinamento daquele submundo
decidiu que seria gente. Recorda-se que sua mãe se preocupou com tal decisão,
afinal certamente ele teria vergonha dela se estudasse muito.
Parece haver alguma semelhança entre os fios que
transpassaram as vidas de nossos personagens, em tempos distintos e em lugares
também diversos do imenso Brasil. Tito, Joaquim Maria e Vicente foram meninos
pobres com uma forte ligação com o mundo do conhecimento. Tito, residindo em uma
pequena cidade rural do nordeste árido; Joaquim, no Rio de Janeiro; e Vicente, em São
Paulo. Cada um deles percorreu caminhos difíceis que poderiam afastá-los do
mundo do saber, mas isso não ocorreu. O que os fez conseguir alimentar uma
forte relação com o conhecimento, e o que os manteve nesse rumo, a despeito de
tantos entraves ocasionados pela desvalorização da cor e da origem social
humilde? Como se dá o estabelecimento de um laço tão forte com o conhecimento
que ultrapasse outro laço social fundamental – o da origem, nesse caso uma
origem que traz as marcas da distância do saber escolar?
Diante dessas histórias, é inevitável o questionamento
acerca daquilo que converteu o menino Tito no admirado professor e diretor
Jacinto; transformou o humilde Joaquim Maria em Machado de Assis; e tornou o
garoto conhecido como Vicente, Florestan Fernandes. O que haveria em cada um
desses caminhos trilhados por eles que pudesse ser destacado como definitivo em
suas trajetórias, em suas escolhas atípicas, em seus raros destinos...?
O que move um aluno proveniente de uma classe social
desfavorecida a aprender na escola? A escolha pela aprendizagem não é um
caminho óbvio. Diante de tantos obstáculos que podem se iniciar com o medo de
afastar-se culturalmente de suas origens, o frequente esvaziamento do valor da
escola pela comunidade ou família, concomitante à dificuldade em conseguir uma
vaga; que seguem pelo problema da locomoção até a escola, escassez de uniforme
e material escolar; e ainda passam pelas condições, com frequência, degradantes
da escola e pelo desânimo dos professores submetidos a uma situação
profissional também degradante; caminham pela configuração de um sistema de
ensino que não favorece a que esse aluno encontre um sentido que o leve a
inserir-se, pelo contrário, que desmoraliza sua imagem e a sua cultura
popular... Enfim, diante de tantos problemas já amplamente denunciados e
criticados, como imaginar que é possível o estabelecimento de uma relação entre
o aluno e o conhecimento que seja mais forte que a relação existente entre a
criança e esse meio social que lhe aponta e conduz a outros caminhos, outras
possibilidades de relação com o mundo, com ela mesma e com o próprio saber?
Esses outros caminhos, com muita constância, não perpassam a aquisição dos
saberes oferecidos na escola e direcionam para outras formas de se haver com a
vida.
No entanto, já descobrimos que a senha de entrada ao universo do conhecimento se inscreve em um sistema de linguagem acessível às diferentes classes sociais. É aqui que começa o desafio.
(Continua...)
Texto adaptado da dissertação de mestrado "A relação com o saber de crianças em acolhimento institucional" de autoria de Vanessa Costa.